O Liberdade

Previsão do Tempo

Campo Grande
+29°C
Grupo Liberdade
Segunda-feira, 20 de novembro de 2017
 
14/12/2015 15h18 - Atualizado em 14/12/2015 15h18

A violência contra a mulher dominada pela poesia

“Saia de tua prisão, tua liberdade, está dentro de ti”, clama um dos poemas da escritora sul-mato-grossense Delasnieve Daspet, no livro intitulado ‘O Som da Lágrima’, lançado recentemente pela Life Editora. A obra literária traz uma série de poemas sobre a temática violência contra a mulher, incentivando-as a relatarem seus casos, a procurar por ajuda e a terem uma vida normal.

Andre Farinha
 
 
Delasnieve Daspet, escritora, advogada e embaixadora universal para a paz no Brasil, em entrevista para o Jornal Liberdade (Foto: Washington Sanches) Delasnieve Daspet, escritora, advogada e embaixadora universal para a paz no Brasil, em entrevista para o Jornal Liberdade (Foto: Washington Sanches)

Transmitir através das palavras o sentimento, que muitas vezes está escondido no silêncio absoluto, da dor de uma agressão, de um insulto, da violência. Esta foi à missão que a escritora Delasnieve Daspet tomou para si, por vontade e conta própria, e fez surgir o belíssimo e elogiado trabalho literário ‘O Som da Lágrima’. A obra, um livro de poesias, narra, por meio de versos carregados de sentimentalismo, o relato de várias mulheres vítimas de violência e agressões psíquicas.

“Esse é um livro de uma mulher para as mulheres, onde essa mulher que escreve trouxe a dor delas para si, tentando traduzir a dor da mulher para que sirva como uma força, uma alavanca, um exemplo às outras que estiverem lendo”, resumiu a autora. Este é o 10º livro publicado por Delasnieve Daspet, a obra é composta por 46 poemas retirados de entrevistas que a escritora fez ao longo de 2014 com mulheres vítimas de algum tipo de violência.

A agressão é democrática, não vá pensar que só a mulher pobre é que apanha, muito pelo contrário, apanha a mulher culta, apanha a mulher inculta; apanha a mulher rica, apanha a mulher pobre

— Delasnieve Daspet, escritora, poetiza e advogada

Numa conversa exclusiva para o Jornal Liberdade, Delasnieve contou que a inspiração para o trabalho literário veio no final de 2013, quando ‘estourou’ em Mato Grosso do Sul o número de casos de violência contra a mulher. “Houve certo caso em que o rapaz agrediu brutalmente a mulher, fiquei muito horrorizada com aquilo e comecei a perceber que havia aumentado drasticamente os casos de violência contra a mulher no nosso Estado. Quando entramos no mês de fevereiro de 2014 já tinha formatado todo o livro na minha cabeça”, disse.

Para o trabalho, a escritora entrevistou 30 mulheres, todas vítimas de algum tipo de violência, e que faziam parte do seu nicho de contatos. “Conversei com médicas, advogadas, assistentes sociais, enfim, a agressão é democrática, não vá pensar que só a mulher pobre é que apanha, muito pelo contrário, apanha a mulher culta, apanha a mulher inculta; apanha a mulher rica, apanha a mulher pobre”, revelou em seu relato sobre a temática. “Percebi nesse trabalho que o negócio é muito maior do que se pode imaginar”.

Delasnieve Daspet fez um apunhalado com as citações das entrevistas e trouxe para si todas as histórias. “Incorporei o sentimento delas e transformei isso em poesia”, explica. O resultado deste processo foi o livro de poesias intitulado ‘O Som da Lágrima’. Ainda segundo ela, seu objetivo com este trabalho literário não é financeiro, mas sim que a obra possa ser contemplada por todas as mulheres que sofrem algum tipo de violência ou agressão. “Gostaria que o livro fosse comprado pelo Governo e entregue a cada mulher vítima de violência. Meu sonho é que toda mulher que sofre com a violência tenha este livro porque serve de apoio, é uma autoestima para ela se recuperar e revigorar”.

Depoimentos que impressionam

 
Delasnieve Daspet lê um trecho do seu livro: O Som da Lágrima. (Foto: Washington Sanches) Delasnieve Daspet lê um trecho do seu livro: O Som da Lágrima. (Foto: Washington Sanches)

Delasnieve Daspet relata que se impressionou com os depoimentos dados pelas mulheres durante a fase de entrevistas. “As mulheres pobres, as dependências delas são psíquica, social, econômica, têm medo do marido, medo do futuro dos filhos. Já as ricas tem medo de solidão, de perder o prestígio social”, disse. “Elas têm muita vergonha, choram muito quando estão contando. Elas não sabem como sair dessa situação, se perguntam como vão denunciar o pai dos seus filhos, como contar à família que apanham do marido. A dependência é emocional”.

No livro, a escritora fala exatamente desses problemas, do medo de relatar os casos, de denunciar, e no final convida as mulheres a sair do ‘casulo’. “As chamo para que saiam do casulo, que se transformem em borboletas e comecem a voar, independentes, mesmo que tenham uma vida curta, mas que sejam livres”. Sobre a temática, Delasnieve ressalta que acha falha à atuação do Poder Judiciário. “O Poder Judiciário tira a mulher e os filhos da casa, coloca-os num abrigo, mas não dá uma definição, uma garantia, e depois de 30 dias, quando ela volta para casa, o marido está lá e tudo acontece de novo. Ainda não chegaram naquilo que deveria ser ideal, este é o meu pensamento”, criticou.

Falta de apoio

A escritora relatou ainda que não recebeu apoio algum por parte do Governo ou órgãos públicos voltados a Políticas para as Mulheres. Delasnieve disse que esteve na Secretaria da Mulher e que pediu a parceria da pasta no livro, mas não foi atendida. “Queria que eles adotassem o livro e encaminhasse-o às mulheres vítimas de violência. Meu desejo era que o livro fosse trabalhado por psicólogos e demais profissionais em presídios, casas de proteção, delegacias, secretarias de assistência social, entre outros órgãos”, citou. “Não existe nenhum trabalho similar da forma como eu fiz”, concluiu.

Delasnieve Daspet



Ativista das causas da paz, sociais, humanas, ambientais e culturais, a escritora, poetiza e advogada Delasnieve Daspet acumula reconhecimentos nacionais e internacionais. Atualmente, é a embaixadora Universal da Paz para o Brasil e presidente da Associação Internacional de Poetas; também já esteve à frente do Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul e do Conselho Estadual de Cultura, além de ser autora de anteprojetos de leis, como o que estabeleceu o Dia Estadual da Cultura da Paz (Lei Estadual 4.034/2011) e do texto que criou o Dia do Escritor Sul-mato-grossense (Lei Estadual 3.486/2007).

Na literatura, um de seus mais recentes trabalhos, “Cantares”, lançado em 2013, foi indicado pela Câmara Brasileira do Livro para ser exposto no Salão do Livro, em Paris (França); O livro “Pã-Che-Tetã”, lançado em 2014, concorreu ao Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura brasileira, e foi lançado na ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York (EUA), como parte da programação do evento do Governo do Estado - "Mato Grosso do Sul visto pelo mundo".

Seja o primeiro a comentar!

Envie seu Comentário!

Antes de escrever seu comentário, Atenção! O JL NEWS não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Restam caracteres. * Obrigatório
Digite as 2 palavras abaixo separadas por um espaço.
 

Este material não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído.
Copyright 2014 © O Liberdade - Todos os direitos reservados. By Bimboo Software

Expediente | Anunciar no site | Trabalhe Conosco | Reportar Erro